02 março 2008

Liderança bicéfala ou corta-fitas?

As eleições deste Domingo confirmaram as previsões: Dmitri Medvedev sucede a Vladimir Putin na presidência da Federação Russa. Putin, constitucionalmente impedido de concorrer a um novo mandato, trocará o Kremlin pela Casa Branca, residência oficial do primeiro-ministro.

Mais de 35 mil pessoas comemoraram, na Praça Vermelha, a vitória eleitoral. As autoridades tinham montado um sofisticado espectáculo de vitória. Poucos minutos depois do fecho das urnas, o hino de campanha de Medvedev era entoado na televisão pública, que transmitia em directo do local das celebrações.

Sergei Sobyanin, chefe de campanha de Medvedev, afirmou à AFP que “o resultado não estava pré-determinado” e que as eleições “ofereceram verdadeiras opções aos eleitores”. Os críticos, porém, argumentam que houve casos de patrões que coagiram o sentido de voto dos seus funcionários.

Numas eleições sem monitorização da OSCE, Medvedev obteve 69,6% dos votos, Guennadi Ziuganov, dirigente do Partido Comunista, alcançou os 17,2 %, Vladimir Jirinovski, líder do Partido Liberal Democrático, de extrema-direita, 11,4% e Andrei Bogdanov, candidato do Partido Democrático, europeísta, não foi além de 1,8%.

Outros candidatos tinham, no entanto, sido excluídos pelo Kremlin, ou simplesmente declararam que não participaram nas eleições, por considerarem não haver um ambiente suficientemente democrático. A afluência às urnas foi de 70 %, o que traduziu uma subida de 6 pontos percentuais em relação às anteriores presidenciais.

Os observadores do Partido Comunista da Rússia denunciaram mais de 200 violações da lei eleitoral, em várias regiões do país. A oposição, de um modo geral, acusa o poder de ter controlado a campanha eleitoral de forma tendenciosa, tanto através do suporte governamental como das ameaças à oposição, protagonizadas pela oligarquia dominante.

Analistas afirmam que há duas possibilidades para a evolução dos acontecimentos dentro do regime: ou Putin e Medvedev realmente alcançam a liderança bicéfala, que ferozmente anunciaram durante a campanha ou o segundo será, a médio prazo, transformado em corta-fitas pela estrutura política instalada.

01 março 2008

Erevan declara estado de emergência

O Presidente da Arménia, Robert Kocharyan, declarou este sábado o estado de emergência na capital do país. A medida visa pôr termo uma onda de contestação, que tem reunido dezenas de milhar de manifestantes, em protesto contra alegadas irregularidades eleitorais nas presidenciais de 19 de Fevereiro.

O actual Primeiro-ministro, Serge Sarkisian, foi eleito Presidente com uma maioria de 53%. Ter-Petrossian, que somou 21,5% dos votos, não reconhece os resultados e reivindica a repetição do escrutínio. A polícia de choque obrigou Ter-Petrossian a recolher à sua casa, onde ficou retido, vigiado de perto por um importante cordão policial. O candidato opositor é favorável a uma aproximação à NATO, contrariamente à posição do partido do poder, que defende a continuidade da tradicional aliança com Moscovo.

Ao princípio da tarde, a polícia dispersou uma concentração, de cerca de 5 mil pessoas, com recurso a gás lacrimogéneo e canhões de água. Perante a onda de violência, alguns dirigentes da oposição apelaram à calma, depois de vários manifestantes terem arremessado pedras e cocktails molotov às forças da ordem. Os incidentes já provocaram um morto e mais de trinta feridos.

29 fevereiro 2008

Maps of war

Neste endereço é possível, em apenas 90 segundos, visualizar a ascensão e queda dos impérios que dominaram o Médio Oriente durante os últimos 5000 anos. Na página principal do site podemos encontrar uma grande diversidade de mapas, muitos deles em animação flash. Aqui fica então a sugestão...



http://www.mapsofwar.com/images/EMPIRE17.swf

28 fevereiro 2008

Decidam-se lá e depois digam à gente!

Pridnestróvia, Transnístria ou Transdniestria? É difícil para um português, que tenta referir-se a um território sempre pelo mesmo nome, saber qual usar, visto que aparentemente, nem os naturais têm uma posição de consenso em relação a essa matéria. Nesta quinta-feira, na edição electrónica do Tiraspol Times, podíamos encontrar referências à autoproclamada república nas três versões do seu nome.

Em português, ainda se poderia compreender que diferentes autores tratassem esse território por transliterações distintas, sustentando a sua tese em argumentos etimológicos e nas especificidades de cada língua na assimilação de nomes estrangeiros. Numa tradução de 1975 da obra “As Democracias Populares”, de François Fejtó, a província de maioria albanesa do sul da Sérvia é referida como sendo o “Cossovo”. Se os portugueses dissessem “Cossovo”, estariam a reproduzir um conjunto de sons muito semelhante ao de “Kosovo”, dito com pronúncia inglesa e mais semelhante à forma de dizer dos autóctones. O mesmo se passa com a Abkhásia, Abecácia ou Abcázia, outro dilema linguístico para alguém que quer escrever sobre estes sítios...

Mas quando são os próprios naturais a não chegar a um consenso, o caso é mais complicado... Por isso, habitantes das margens do Dniestre, decidam lá e depois digam à gente o nome do vosso país!

25 fevereiro 2008

"Kosovo é Sérvia" ou "Kosovo nunca mais será parte da Sérvia"?

Cerca de 2 mil sérvios manifestaram-se esta segunda-feira na cidade dividida de Kosovska Mitrovica. No protesto, entre exclamações de “Kosovo é Sérvia”, queimaram-se bandeiras da União Europeia (UE). A polícia da missão da Organização das Nações Unidas (ONU) protegeu a ponte que simboliza a separação entre os sérvios e os albaneses de Mitrovica e não se registaram actos violentos.

A Sérvia encontra-se numa situação política delicada. O Presidente Boris Tadic, apesar de manifestar a sua oposição à independência do Kosovo, defende a manutenção das relações com os países que reconheceram a província como um Estado. Esta é a posição defendida pelo Primeiro-ministro, o nacionalista Vojislav Kostunica, que acha que o Estado sérvio deve assumir uma posição de ruptura

"Os EUA devem anular a decisão de reconhecer o falso Estado em território da Sérvia”, declarou Kostunica à imprensa sérvia. Segundo este responsável, os Estados Unidos devem “possibilitar que o Conselho de Segurança da ONU reafirme a validade da resolução 1244, garantindo assim a soberania e a integridade territorial da Sérvia”.

O Ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, manifestou-se contra o que classifica de “cinismo descarado” dos EUA, ao apoiar apenas a parte albanesa e “desprezar o direito em favor da racionalidade política”. O ministro, nesse comunicado, questiona se é possível “ficar indiferente em relação ao destino de cem mil sérvios, que no séc. XXI, são empurrados para um gueto?”

Tom Casey, porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, trouxe rapidamente a resposta do Governo: “Vamos continuar a tentar trabalhar, tanto com os russos como com os sérvios, mas acho que deve ficar claro para todos que o Kosovo nunca mais será parte da Sérvia”.

As declarações de Casey vão no sentido de que todas as partes envolvidas se deveriam empenhar na execução do “plano para a independência supervisionada de Kosovo”, elaborado por Martti Ahtisaari (enviado especial da ONU para o Kosovo). O porta-voz do Governo americano concluiu a sua intervenção com a ideia de que os EUA desejam a Sérvia integrada na UE e em paz com os seus vizinhos.


24 fevereiro 2008

Castro por Castro

A Assembleia Nacional cubana elegeu este Domingo, numa sessão histórica, um novo Chefe de Estado. No seu discurso de tomada de posse, Raul Castro salientou a importância de "assegurar a continuidade da revolução", através do fortalecimento da economia e consequente melhoria do nível de vida do povo.

Raul era tido por muitos como o natural sucessor do irmão na presidência. Ministro da Defesa desde 1959 e reconhecido administrador, este general de 76 anos foi uma peça fundamental na gestão da crise resultante do colapso da União Soviética. O recém-empossado Chefe de Estado tinha assumido a presidência interina em Julho de 2006, altura em que Fidel foi submetido a uma cirurgia intestinal de alto risco.

23 fevereiro 2008

Jornalista russo estica-se

O jovem apresentador russo Konstantin Siomin, num comentário aos acontecimentos na Sérvia, afirmou, em directo, que Zoran Djindjic, (assassinado em 2003) “recebeu merecidamente uma bala”. O jornalista afirmou ainda que Djindjic, que chefiou o primeiro governo da Sérvia pós-Milosevic, não passava de uma “marioneta ocidental”.

Segundo Siomin, o político assassinado foi “o responsável pela destruição das lendárias forças armadas e serviços secretos sérvios”, além de ter “vendido a Haia os heróis da resistência”. A Embaixada da Sérvia em Moscovo já pediu esclarecimentos, indagando sobre se essas palavras representam apenas a opinião do jornalista ou são uma posição do Estado russo.

Turquia ataca no Curdistão iraquiano

O exército turco lançou na terça-feira uma operação militar em larga escala no Curdistão Iraquiano. A incursão tem por objectivo desmantelar bases dos rebeldes do PKK, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão.


Segundo o governo de Ancara, a operação visa impedir os separatistas curdos de lançar ataques sobre o território turco, a partir do norte do Iraque. Os cinco dias de incursão provocaram já a morte de 40 combatentes curdos e de pelo menos quatro soldados turcos. Um porta-voz do PKK afirmou este sábado que os combates causaram já 22 mortos entre os atacantes.


Os rebeldes ameaçaram já que, se Ancara não interromper a ofensiva militar, podem desferir ataques sobre cidades turcas. Ahmad Danis, porta-voz do PKK, afirmou, à AFP, que “se a Turquia mantiver o ataque, deslocaremos o cenário dos combates para o interior das cidades turcas”. Salientou, no entanto, que estas acções “não irão apontar para a população civil”.


O ministro dos negócios estrangeiros iraquiano, Hoshyar Zebari, afirmou sábado, em declarações à BBC que uma escalada na operação militar turca pode desestabilizar ainda mais a região. O ministro iraquiano lamentou que várias pontes tenham sido danificadas, apesar das promessas dos governantes turcos de não afectar as infra-estruturas iraquianas durante as manobras.


O primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, disse este sábado que a operação seria breve: “O alvo, o propósito, o tamanho e os parâmetros desta operação são limitados”, acrescentando que o Exército “voltará para casa o mais rápido possível”. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-Mun, manifestou já a sua preocupação com a “protecção dos civis nos dois lados da fronteira”.


O Parlamento turco tinha aprovado, em Outubro do ano passado, uma autorização para a realização de operações militares em território iraquiano, no âmbito do combate aos rebeldes do PKK. Porém, ao contrário do que aconteceu há três meses, este ataque não foi precedido de qualquer ataque por parte dos rebeldes do PKK. O Governo turco admite que três a 10 mil soldados estejam envolvidos na ofensiva.


Os 26 milhões de curdos, distribuídos entre a Turquia, o Iraque, o Irão, a Síria, a Arménia e Azerbaijão, são o maior povo do mundo sem um Estado próprio. O PKK luta por um Curdistão independente desde 1978. Estima-se que mais de 35 mil pessoas tenham morrido desde então, entre combatentes e civis. Os Estados Unidos e a União Europeia têm o PKK nas suas listas de organizações terroristas.

Deuses para todos os gostos...

A história de cada civilização sempre se fundou nos seus deuses. Neste site podemos encontrar 2850 divindades, desde as civilizações antigas até aos santos cristãos. A não perder...


22 fevereiro 2008

Manifestação acaba em confrontos

Mais de 150 mil pessoas desfilaram esta quinta-feira no centro de Belgrado, num protesto contra a declaração unilateral de independência do Kosovo. A manifestação foi convocada pelo primeiro-ministro, Vojislav Kostunica, para “mostrar pacificamente ao mundo” que os sérvios não aceitam a independência da sua província.

Num tom inflamado, o primeiro-ministro deu o mote ao protesto: “O Kosovo é Sérvia! O Kosovo pertence ao povo da Sérvia! Sempre foi assim e sempre será assim! Por nós, os sérvios, tudo é possível pela amizade, mas nunca pela força. Se aceitamos a força e o medo, cada vítima da fundação da Sérvia terá sido em vão!”.

Ao fim da tarde, grupos de jovens atacaram as representações diplomáticas dos Estados Unidos, Croácia, Alemanha, Canadá e Turquia. Os confrontos entre os manifestantes e as forças policiais provocaram mais de 80 feridos, entre os quais 21 polícias e um jornalista holandês.

A embaixada dos Estados Unidos foi invadida e incendiada, tendo um indivíduo chegado ao ponto de retirar a bandeira norte-americana e colocar uma da Sérvia. Enquanto isso, a multidão gritava “Sérvia, Sérvia”. O incêndio provocou um morto.

Numa região fronteiriça entre a Sérvia e o Kosovo, um grupo formado por cerca de 300 pessoas, entre elas muitos veteranos do Exército sérvio, atacou, com pedras e cocktails-molotov, um posto da polícia albanesa. O presidente da Sérvia, Boris Tadic, a partir de Bucareste, onde se encontra em viagem oficial, pediu o fim da violência.

O ministro dos negócios estrangeiros alemão, Gernot Erler, tinha afirmado na quarta-feira que os políticos sérvios ficaram “prisioneiros das suas próprias palavras”, por terem levado a opinião pública a acreditar que a independência do Kosovo era possível de evitar.

“Agora têm dificuldades para dar explicações, e adoptam uma postura agressiva para com o Ocidente”, afirmou. O político desvalorizou, no entanto, os protestos e críticas, dizendo serem apenas “escaramuças de retirada”.

21 fevereiro 2008

Country Reports


Neste endereço está disponível uma grande quantidade de informações sobre todos os países do mundo. Fácil e intuitivo. Basta clicar no país que queremos e escolher o parâmetro sobre o qual queremos obter a informação.

http://www.countryreports.org/


20 fevereiro 2008

Fidel sai de cena


Após 49 anos de liderança, Fidel Castro anunciou ontem a sua renúncia formal aos cargos políticos que detinha no Governo e Exército cubanos. Em comunicado, transmitiu a sua intenção de não se candidatar a um novo mandato na Presidência.

Apesar de sempre ter desejado “cumprir as tarefas revolucionárias até ao último suspiro”, o líder cubano admite, num texto publicado no “Granma”, que seria um erro “assumir uma responsabilidade que exige mobilidade” e para as quais não se sente “em condições físicas de cumprir”.


Nesta hiperligação tenho publicada uma perspectiva cronológica sobre a história de Cuba, o a forma como esta se confunde tantas vezes com a do próprio Fidel (trabalho realizado em Dezembro de 2007).

http://zasilva-cuba.blogspot.com/

19 fevereiro 2008

Dinamarca a ferro e fogo

A Dinamarca sofreu ontem a oitava noite consecutiva de distúrbios. Em diversas cidades dinamarquesas, desenvolvem-se protestos violentos, protagonizados por grupos de jovens muçulmanos das zonas periféricas.

Passados dois anos sobre os acontecimentos violentos, despoletados pela publicação de caricaturas que representavam o Profeta Maomé em poses menos abonatórias, os jornais dinamarqueses, num voto colectivo de protesto, voltaram a publicar a mais contestada dessas imagens.

Esta publicação foi um protesto contra a tentativa de assassinato de Kurt Westergaard, o autor do desenho que representava Maomé com uma bomba na cabeça, integrada no turbante. A polícia deteve já três suspeitos de planear o assassinato.

O primeiro-ministro dinamarquês, Anders Fogh Rasmussen reafirmou ontem que “a liberdade de imprensa na Dinamarca inclui cartunistas”, e que a revolta pela republicação dos desenhos não dá a ninguém “o direito de queimar o carro do outro nem queimar escolas e instituições”.

18 fevereiro 2008

“Rambo” dá 7 anos de cadeia

As autoridades de Myanmar (antiga Birmânia) proibiram esta segunda-feira a distribuição da última aventura cinematográfica de John Rambo, o famoso veterano de guerra representado pelo actor americano Sylvester Stallone.

Nesta aventura, a personagem infiltra-se na selva birmanesa para resgatar uma tribo minoritária e uma missão evangelizadora cristã, vítimas de perseguição pelas tropas do regime. O governo de Rangum não permite a visualização do filme, pelo que já alertou os comerciantes de que a venda do DVD será punida com uma pena de prisão de 7 anos.

O Myanmar é um país governado por uma junta militar, que tomou o poder em 1962, tendo, no final de 2007, sido palco de grandes manifestações contra o regime, protagonizadas por monges budistas e amplamente reprimidas pelas forças de segurança.

As últimas eleições realizaram-se em 1990, tendo os resultados destas sido ignorados pelos militares no poder, pois o partido que os representava elegeu apenas 8 deputados em 481. A Liga Nacional para a Democracia, de Aung San Suu Kyi (mantida em prisão domiciliária pelas forças do regime), foi o partido vencedor, tendo elegido 397 representantes. Os militares, porém, anularam o resultado do escrutínio, alegando que a mudança iria promover a desagregação do Estado.

17 fevereiro 2008

Albaneses do Kosovo celebram independência

O parlamento kosovar aprovou este domingo, por unanimidade, a independência daquele território em relação à Sérvia. A declaração de secessão foi proferida pelo primeiro-ministro Hashim Thaci: “O Kosovo é independente, soberano e livre” afirmou o líder. “Muitos perderam a vida para que este dia se tornasse realidade”.

Desde o início da manhã de Domingo que os kosovares albaneses afluíram a Pristina, vindos de todas as zonas da província separatista. Também nas comunidades da diáspora se verificou um afluxo massivo de emigrantes, que queriam estar no território no dia da proclamação de independência.


Boris Tadic, presidente da Sérvia, emitiu de imediato um comunicado, no qual reafirmou que “a Sérvia nunca reconhecerá a independência de Kosovo”. Nessa missiva, porém, o presidente apela à calma, garantindo de que “a Sérvia reagiu e reagirá recorrendo a todos os meios pacíficos, diplomáticos e legais para revogar este acto”.


Também o primeiro-ministro Vojislav Kostunica se manifestou prontamente contra esta declaração unilateral. Na sua declaração, não poupou críticas a George W. Bush. “O presidente dos Estados Unidos e os seus partidários europeus entrarão para a história da Sérvia em letras negras”, afirmou.


O ministro sérvio para o Kosovo, Slobodan Samardzic, deslocou-se a Kosovska Mitrovica, uma cidade no norte do Kosovo onde os sérvios são maioritários, para expressar o apoio governamental à população. Samardzic afirmou que a presença sérvia no território permanecerá “onde for possível”, de modo a permitir que os sérvios do Kosovo ”levem uma vida normal”.

13 fevereiro 2008

Quantificando o direito à independência

“Os americanos estão a criar um novo Bin Laden”. Quem o afirma é Serguei Markov, deputado da Duma e director do Instituto de Estudo Políticos russo. O político classifica o reconhecimento da independência do Kosovo, por parte dos EUA, como um “erro terrível”, “No fundo, Tahci (líder do Kosovo) não é muito diferente de Bin Laden. Os americanos alimentaram esse terrorista e agora ele faz explodir as suas casas. Tahci será mais um Bin Laden”.


Nas suas declarações o deputado defendeu ainda que a Abkhasia, a Ossétia do Sul ou a Transnistria “têm mais direito à independência do que o Kosovo”. Markov ilustrou a sua tese com os casos da Espanha e da França: “Madrid não vê a situação em torno do Kosovo como precedente, mas os bascos vêem; Paris também não vê, mas os córsegos vêem. O mesmo se passa nas relações entre a Geórgia e a Abkhasia e Ossétia do Sul e entre a Moldávia e a Transnistria”.


O deputado referiu uma grande discussão política na Duma sobre as medidas a implementar em relação às repúblicas independentistas georgianas. Curiosamente, quando questionado se a Duma iria levantar a questão do reconhecimento da independência destes territórios, respondeu de forma directa, que “a Duma fará o que Vladimir Putin disser”.

11 fevereiro 2008

"Do you look like your dog?"

Tipicamente americano... Em Oakland, Califórnia, realiza-se anualmente um concurso onde vence o dono que se parecer mais com o seu cão! E pelos vistos há quem faça disto estilo de vida...


10 fevereiro 2008

Da Rússia...

Quem vai buscar a cerveja?

Ano de 2032. Moscovo. Numa cervejaria estão sentados Vladimir Putin e Dmitri Medvedev a beber cerveja.

Putin - Dmitri, qual de nós é o presidente da Rússia? Tu ou eu? Já estou completamente confuso.

Medvedev - Vladimir Vladimirovitch, claro que você é que é o presidente.

Putin - Então, vai tu buscar a cerveja.


(extraído do blogue “Da Rússia”, do jornalista José Milhazes)

09 fevereiro 2008

Tadic prevê conflitos, Rússia apela ao multilateralismo


O reeleito presidente da Sérvia, Boris Tadic, num discurso proferido ontem numa conferência internacional sobre segurança em Munique, advertiu que a declaração de independência do Kosovo poderá ter graves consequências. "Caso a Sérvia seja dividida contra a sua vontade, poder-se-á assistir a uma escalada em muitos conflitos existentes e à reactivação de vários conflitos congelados", afirmou o líder sérvio.

O embaixador da Rússia em Portugal, Pavel Petrovsky, reiterou hoje, em Lisboa, que à luz do Direito Internacional, a independência do Kosovo só pode ser autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU. Petrovsky referiu ainda " que a declaração unilateral poderá abrir um precedente "para outras zonas do mundo, referindo-se à Espanha, à Roménia e à Eslováquia, países que já se manifestaram contra a decisão de conceder a independência à província.

O embaixador afirmou ainda que Moscovo procura cooperar com base no multilateralismo, indispensável para resolver as “muitas contradições no mapa mundial” com que a comunidade internacional se debate na actualidade e a atitude dos países que querem dar a independência ao Kosovo à revelia de Belgrado, em nada contribui para a resolução destas questões.

08 fevereiro 2008

Não queria ele mais nada!


O Arcebispo de Cantuária, Rowan Williams, que tinha ficado célebre, mundo fora, por ter sugerido que o Tsunami de 2004 na Ásia tinha sido “obra de um Deus bom”, meteu água outra vez.

O clérigo anglicano acha agora que seria proveitoso aplicar “algumas partes da Sharia”, a retrógrada e misógina Lei Islâmica, para que os “cidadãos britânicos de origem islâmica” pudessem passar a resolver as suas disputas “de acordo com os seus valores culturais”.

Desculpem lá, mas esta proposta sustenta uma ideia de pertença irrevogável à comunidade religiosa de que se é originário! Ou seja, leis que se aplicam a um membro de uma religião e não a um de outra. Será que ele nunca ouviu falar de laicidade?

07 fevereiro 2008

Pridnestróvia ou Transnístria?

A Transnístria é uma região situada no leste da República Moldova, fazendo fronteira com a Ucrânia e separada geograficamente do restante território moldavo pelo rio Dniestre.

Em 1991, ano da sua independência da URSS, a Moldova reclamou, na sua proclamação oficial de independência, o direito histórico da soberania sobre o território. Como consequência disso, a República Moldava da Pridnestróvia (ou Transnístria) proclamou a sua independência.

Apesar de uma tentativa de invasão pela Moldova, o apoio militar de Moscovo e Kiev permitiu à região manter, a partir daí, uma total autonomia política em relação a Chissinau. Actualmente, os partidos moldavos não participam, inclusivamente, nos processos democráticos de eleição política no território.

A ligação política da Pridnestróvia à República Moldova deve-se em grande parte à estratégia geopolítica da URSS no período pós-segunda guerra mundial. Em 1940, Estaline invade a Moldávia, anexando Pridnestróvia ao território que mais tarde seria a República Socialista Soviética Moldava.

Os dois nomes distintos derivam das influências civilizacionais: "Pridnestróvia" é o nome eslavo e" Transnístria" o de influência latina.


06 fevereiro 2008

Rússia ameaça reconhecer Abkhásia, Ossétia do Sul e Transnistria


A proclamação da independência do Kosovo pode trazer alterações de fundo à política externa regional da Rússia. Quem o afirma é Konstantin Kossatchov, chefe do Comité para a Política Externa da Duma (câmara baixa do parlamento russo).

Após a vitória de Boris Tadic nas presidenciais sérvias, este alto responsável declarou que uma “proclamação unilateral da independência do Kosovo e o possível reconhecimento dessa independência por uma série de estados ocidentais será um sério argumento para a Rússia rever as posições, antes contidas, face às repúblicas autoproclamadas” da Abkhásia e da Ossétia do Sul (regiões separatistas da Geórgia, com importantes populações russófonas) e da Transnistria, secessionista da República Moldova.

“Hoje, é difícil prever de que forma se vai desenvolver a posição da Rússia”, continua o deputado “temos que discutir a que ritmos e em que sentido se vai desenvolver a nova posição”. Deixou ainda claro que a Rússia irá utilizar “todas as possibilidades de que dispõe” para impedir o reconhecimento internacional do Kosovo.


03 fevereiro 2008

Turcos manifestam-se pela proibição do véu nas Universidades



Cerca de 100 mil turcos manifestaram-se este sábado, no centro de Ancara, para protestar contra a revisão constitucional que, entre outras medidas, aprovará o levantamento da proibição do uso do véu islâmico nas universidades. O pano de fundo dos protestos foi o mausoléu de Mustafá Kemal "Ataturk", fundador da Turquia moderna. Os manifestantes temem que a medida represente um avanço do Islão nas instituições da Turquia laica e secular.


Os líderes políticos dizem que esta medida aproxima o país da União Europeia, pois representa um avanço nas liberdades individuais. O governo de Ankara enquadra esta medida legislativa na promoção dos princípios seculares sagrados da constituição.


O Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP, no poder), considera que a proibição do véu islâmico é uma violação à liberdade de consciência e ao direito à educação, visto que muitas jovens, sobretudo as oriundas de meios mais tradicionais, não frequentam actualmente as Universidades por causa desta restrição. Opinião diversa têm os manifestantes, que se opõem ao que chamam “um poder radical emergente no Islamismo da Turquia”.

01 fevereiro 2008

Não será antes Playa de la Luz???


Gandas malucos


Anda por aí a circular este mapa, com a informação de que foi publicado, em tamanho grande, na edição de 13 de Outubro de 2007 do FINANCIAL TIMES. Verdade ou não, digamos que foi preciso ter muita imaginação para o produzir. Mas a ser verdade é inqualificável...


31 janeiro 2008

Algumas ideias-chave sobre a Jugoslávia

Em 1918, das cinzas dos Impérios Otomano e Austro-húngaro, foi fundado o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos. Essa nova nação unia, sob a tutela da família real sérvia, os povos eslavos que historicamente tinham estado subjugados aos impérios Austro-húngaro e Otomano.

Em 1929 este país passou a chamar-se Reino da Jugoslávia (Reino dos eslavos do sul). Durante o período que antecedeu a 2ª Guerra Mundial, havia grande conflituosidade entre as diferentes etnias, que levaria a uma guerra civil que perduraria até às invasões alemã e italiana, em 1941.

A ocupação fascista cimentou ódios antigos, sobretudo porque uma significativa parte do povo croata apoiaria Hitler e o nazismo, em parte como forma de vingança dos antigos opressores sérvios. Deste ódio inter-étnico evidenciaram-se dois grupos beligerantes rivais: os Ustashi, croatas que lutavam ao lado dos nazis, com o objectivo de estabelecer a Grande Croácia, e os tchetniks, monárquicos sérvios, que por um lado combatiam os nazis e, por outro, as facções croatas que lutavam contra o ideal de uma Grande Sérvia, herdado do domínio sérvio no Reino da Jugoslávia.

A bandeira comunista surgiu como uma forma de atenuar os conflitos entre etnias e combater os nazi-fascistas. Surgiram então os partizans, guerrilheiros comunistas apoiados pela União Soviética, liderados por Josip Broz Tito.

Derrotadas as potências do Eixo, Tito fundou a República Socialista Federal da Jugoslávia, que congregava seis repúblicas: Sérvia, Croácia, Eslovénia, Bósnia-Herzegovina, Montenegro e Macedónia.

Uma frase podia caracterizar a Jugoslávia de Tito: "Seis repúblicas, cinco etnias, quatro línguas, três religiões, dois alfabetos e um Partido". Este sistema mostrou-se eficaz para forçar a convivência entre as etnias, pois atenuava as divisões religiosas através do ateísmo próprio dos regimes socialistas/comunistas.

Com a morte de Tito, a estabilidade étnica, até aí mantida com mão-de-ferro pelo regime, começa a mostrar sinais de fraqueza, com o consequente reacender das disputas antigas e um reavivar dos nacionalismos extremistas, por todas as partes.

Depois das sangrentas guerras que, entre 1991 e 1997, dividiram a República Socialista Federal da Jugoslávia pelas repúblicas da Eslovénia, Croácia, Macedónia, Bósnia-Herzegovina e Federação Jugoslava (resultante da manutenção da união política entre a Sérvia e o Montenegro), subsistia um problema de fundo.

A política de povoamento de Tito, após a 2ª Guerra Mundial, tinha impedido os sérvios kosovares, que tinham fugido do Kosovo durante a ocupação pelas forças do eixo, de regressar às suas casas, em nome da estabilização rápida e de uma reconciliação entre as várias etnias.

Os sérvios, apesar de terem apenas 10% da população kosovar, vêem no Kosovo o “berço da sua nação”, sendo também um importante lugar de peregrinação na sua fé ortodoxa.

A província do Kosovo, de maioria albanesa, manifestava pretensões separatistas Estas pretensões nacionalistas dos albano-kosovares (80% da população) provocariam uma resposta musculada dos sérvios, que invadiram a província. Esta acção militar daria origem a que alguns países da NATO manifestassem o seu apoio aos albaneses do Kosovo, nomeadamente ao seu braço armado, o Exército de Libertação do Kosovo (ELK).

Os argumentos utilizados pela NATO visavam a necessidade de evitar a repetição dos crimes de guerra, perpetrados pelos sérvios da Bósnia, mas desta vez em território kosovar, contra muçulmanos albaneses.


30 janeiro 2008

Kosovo prepara declaração de independência

Os governantes albaneses do Kosovo afirmam-se empenhados “numa ampla cooperação” com Bruxelas e Washington, no sentido de definir uma data para a declaração de independência. A UE e os EUA preferem falar em “definição do futuro da província”, de modo a não exaltar os ânimos entre os sérvios antes da segunda volta das presidenciais.

Enquanto não estiver definido o futuro político da Sérvia, não é de prever uma tomada de posição, por parte da UE, em relação ao futuro deste território, sob administração da ONU desde 1999, ano dos bombardeamentos e do início da ocupação militar da NATO.

Espera-se, no entanto, que os EUA, bem como as principais potências da UE, venham a reconhecer a curto prazo a independência da província, apesar da oposição da Sérvia e da Rússia, que já alertou que irá retaliar caso essa declaração seja proferida.

Uma economia dependente

Dos dois milhões de habitantes, estima-se que cerca de metade viva com carências alimentares. Também a taxa de natalidade do Kosovo tem sido, nos últimos anos, uma das mais altas da Europa, tendo actualmente um terço da população com menos de 14 anos.

O grande problema interno com que a província separatista se depara, perante a iminente independência, é a incapacidade para criar novos empregos. A sobrevivência económica dos albano-kosovares tem sido, ao longo dos últimos anos, assegurada pelas remessas dos cerca de 375 mil emigrantes, a residir sobretudo nos Estados Unidos, Alemanha e Suíça. Estas remessas rondam um valor anual de cerca de 450 milhões de euros.

A actual taxa de desemprego do território ronda os 40%. O sector público e as organizações internacionais empregam a maior parte da população activa. Apesar dos baixos salários, visto que as organizações internacionais são os empregadores que melhor remuneram os seus funcionários, o custo de vida no Kosovo equipara-se ao dos países da UE.

Os kosovares albaneses esperam que a adesão à UE e consequente abertura das fronteiras e dos mercados, possa por um lado, proporcionar desenvolvimento na região e, por outro, permitir uma emigração mais acessível e mais segura.

Os sérvios kosovares encontram-se numa situação delicada e aguardam a definição política para saber como será o seu futuro enquanto etnia minoritária num futuro estado que não aceitam.

UE apoia e Rússia ameaça

Os EUA e a maior parte dos 27 Estados da UE estão prontos para reconhecer a independência do Kosovo. As posições destes actores têm-se pautado pela moderação, alegadamente para não interferir com os resultados eleitorais da segunda volta das presidenciais sérvias e evitar dar argumentos aos ultra-nacionalistas liderados por Nikolic.

Durante a presidência portuguesa da UE, os chefes de Estado e de governo dos 27 decidiram enviar uma “missão civil e de apoio à polícia” para o Kosovo, assumindo a pretensão de liderar os programas de estabilização e desenvolvimento para a região. A União vai enviar uma força de 1.800 efectivos, que vai substituir o contingente da ONU, que tem conduzido a missão.

A Rússia, aliado tradicional dos sérvios, alertou já os EUA e a UE que tem um “plano de acção para o caso do Kosovo declarar a independência unilateralmente” que compreende algumas medidas “totalmente de acordo” com as posições assumidas anteriormente pelo executivo de Moscovo sobre a independência para o Kosovo”. O negociador russo para o Kosovo, Alexander Kharchenko, afirmou ontem que o reconhecimento internacional da independência “poderá originar uma catástrofe humanitária na região”.

23 janeiro 2008

Alguns apontamentos sobre o Paquistão

O presidente paquistanês prometeu, perante os líderes da União Europeia, que as eleições de Fevereiro serão "livres, transparentes e pacíficas" e apelou aos europeus para "ajudarem em vez de criticarem" o seu regime, na sua luta contra o terrorismo.

Nesta sua primeira saída ao estrangeiro, desde o assassínio da antiga primeira-ministra Benazir Bhutto, Musharraf procura tranquilizar os líderes europeus, inquietos com a instabilidade naquele país, única potência nuclear declarada no mundo muçulmano. O presidente, confrontado com uma ampla crise política, enquadrada numa onda de atentados terroristas, afirmou que o poder irá "para o vencedor, qualquer que ele seja", mesmo que o vencedor seja um partido islamita.

O Paquistão nasceu da inconciliável relação de muçulmanos e hindus, no fim da Índia Britânica, em 1947. As sempre tensas relações com o seu vizinho e estado-irmão, a Índia, estariam na origem de meio século de uma “mini guerra-fria”, com as duas potências a desenvolver programas nucleares militares, uns apoiados pelos EUA (Paquistão)e outros pela URSS (União Indiana).

Hoje em dia, mantém-se um clima de certa tensão entre os dois estados, sobretudo devido à situação de Caxemira, cuja soberania é reivindicada por ambos, à revelia das populações locais, que na sua maioria advogam a independência em relação às duas potências.

Será importante lembrar que Musharraf tornar-se-ia um dos principais aliados do presidente George W. Bush após os ataques de 11 de Setembro de 2001. Em troca, a Casa Branca ofereceria ajuda financeira ao país e suspenderia as sanções impostas em 1998. Numa entrevista ao programa "60 Minutes", Musharraf afirmou que esse apoio ocorreu porque os Estados Unidos ameaçaram que fariam o seu país “voltar à idade da pedra" caso não colaborasse com os EUA na sua guerra contra o terrorismo, que teria o seu inicio no ataque ao vizinho Afeganistão.

20 janeiro 2008

Eleições na Sérvia


Ultra-nacionalista vence primeira volta


Os Telejornais não falaram muito nisso, mas hoje foi dia de eleições na Sérvia. O candidato ultra-nacionalista Tomislav Nikolic foi o vencedor da primeira volta, tendo garantido cerca de 40% dos votos contra os 35% obtidos pelo segundo classificado .

Esta vitória sobre o actual presidente, o europeísta Boris Tadic, vem acentuar o receio, entre as elites liberais sérvias, da paralisação da política de reformas que a Sérvia tem feito nos últimos anos, com vista à adesão à União Europeia.

O confronto entre os dois líderes políticos vai decidir qual a aliança estratégica que a Sérvia vai adoptar: com a vitória de Tadic, ganha a aliança com a EU e os países ocidentais. Sendo Nikolic o vencedor, certamente se verificará um reforço da tradicional aliança com Moscovo.

Durante a campanha, os dois candidatos opuseram-se a uma declaração de independência por parte do Kosovo. Os líderes albano-kosovares têm adiado essa declaração, mas a delicada questão do Kosovo vai certamente sofrer desenvolvimentos após a segunda volta, que se realizará a 3 de Fevereiro.

Entrevista a Adriano Moreira - Abril de 2006

O texto que hoje publico é uma entrevista que fiz ao Prof. Adriano Moreira. O conteúdo, apesar da entrevista ter sido feita há quase dois anos, mantém-se actual e talvez algumas coisas que são aqui ditas façam mais sentido agora do que na altura em que a realizei.

José A. Silva: Nos últimos meses, a questão da energia nuclear tem sido objecto de grande atenção por parte dos meios de comunicação. Esta discussão centra-se, por um lado, na produção de electricidade a partir de energia nuclear e, por outro, na existência e possível utilização de armas atómicas. Como encara o uso, civil ou militar, deste tipo de energia?

Adriano Moreira: Não basta a informação e o saber, também é preciso respeitar a sabedoria, quer dizer, o conjunto de valores que podem ser postos em perigo, por falta de um código de conduta na utilização do saber. Há um fenómeno que tem acompanhado toda a globalização, uma lei da reflexividade: a área dominante intervém noutras áreas. Transfere, por via legal ou ilegal, o saber e a técnica. E esses lugares, que parecem subordinados, organizam uma resposta inesperada (…). Neste momento há um número suficiente de países [que dispõem de arsenal nuclear] para ser altamente preocupante. E é aqui que intervém um conceito, que é um conceito confessadamente americano, mas talvez participado por todos os países ocidentais, que têm a bomba ou a capacidade de a ter…

JAS: Poderíamos incluir nesse grupo de países o Estado de Israel?

AM: Com certeza, é uma das questões, todos eles! São todos os estados que têm o domínio da energia nuclear, sobretudo para fins militares, estão envolvidos nesta questão conceptual e conflituosa, porque o que os ocidentais consideram um estado confiável não é aquilo que do outro lado consideram confiável, de maneira que a situação de risco é enorme, neste momento. Por isso, a única solução racional é o desamamento e para isso é preciso um grande acordo, reforma das Nações Unidas, mas sobretudo que essa reforma corresponda a uma mudança de mentalidades. (…)

Neste momento, há uma mudança dos países ocidentais, sobretudo dos EUA. Eles já não confiam no método democrático, é preciso que o método seja democrático e o resultado seja aceitável. Essa lei da reflexividade já teve manifestações terríveis, uma delas é que enquanto nós olhamos para a legitimidade para intervir e não intervir nas Nações Unidas. A NATO tem um conceito de legitimidade diferente. A União Europeia quer um conceito de legitimidade próprio. Vários países invocam o conceito soberanista da sua legitimidade. (…) Neste momento, a impressão que dá é que o conceito volta ao de cima, há um conflito pelos recursos. E o conflito pelos recursos pode levar à guerra.

Portanto, há todo este panorama de grande inquietação, é um panorama de risco, a meu ver extremamente agudo e por estas razões, e claro que o Médio Oriente é um ponto central de toda esta questão, não apenas o Irão, naturalmente, como a Al-Qaeda (pelas bases que tem ali disseminadas). Mas também é preciso não esquecer a situação da Palestina, também é uma situação que tende a agravar esta questão.

Quanto à utilização da energia atómica para fins pacíficos, eu acho que o problema mais sério (para o qual ainda não vi resposta nos textos que posso ler), diz respeito aos resíduos. Eu sei que a técnica que se aperfeiçoou, sei que Chernobyl foi um grande aviso, mas os responsáveis vão dizendo, de então para cá, que a capacidade de dominar tecnicamente esta actividade, que é enorme, não consegue evitar o erro humano. Mas isso é em todas as nossas actividades. O erro humano é sempre possível, o erro da máquina também. Mas o problema que eu continuo a achar mais preocupante diz respeito à questão dos resíduos.

A humildade sobre a utilização da técnica é uma referência que não pode ser esquecida.


JAS: Considera que a atitude de desafio, dos dirigentes iranianos, são um sinal de que o Irão é uma ameaça à estabilidade internacional? Ou esta atitude será uma “fuga para a frente” do regime, uma intimidação aos EUA e seus aliados, perante as perspectivas da iminência de um ataque militar?

AM: No caso israelita, se o governo do Irão anuncia que quer riscar Israel do mapa, naturalmente, está a criar o risco da resposta antecipada. Aí vai surgir uma dúvida: se a reacção é uma guerra preventiva, porque a guerra preventiva não é considerada legítima, mas é preciso ver quando é que a guerra deixa de ser preventiva.

JAS: E acha que o Estado de Israel pode recorrer ao uso de armas nucleares?

AM: Pode, invocando a agressão em progresso, para escapar á acusação de estar a recorrer à guerra preventiva. E, naturalmente, se invocar isso, invoca com fundamentos que, enfim, se for persistente, e consistente, a ameaça do governo do Irão, têm algum fundamento. O próprio ocidente tem que pensar nessas coisas, também, não nos ternos da guerra preventiva, como, repito, é um conceito que a doutrina rejeita, de uma maneira geral, embora, do ponto de vista técnico, alguns sustentem, embora alguns sustentem, mas do ponto de vista ético, jurídico, é reprovado. Mas a agressão em progresso, provavelmente, a resposta já não cabe no conceito de guerra preventiva…

JAS: Como comenta a ideia de que a onda de violência despoletada pela publicação de caricaturas do profeta Maomé, na imprensa ocidental, terá sido utilizada pelos líderes religiosos muçulmanos como uma forma de galvanizar as opiniões públicas dos seus países contra “o Ocidente”?

AM: Bem, não foram exactamente “os líderes religiosos muçulmanos” que desencadearam isso. Eu julgo que houve uma manipulação das massas, isso é indiscutível…

JAS: Por parte de quem, Professor?

AM: É preciso ter respeito pela fé de cada um, de cada povo e de cada cultura. Isso não tem que ver com a liberdade de exprimir opiniões. É evidente que, se uma caricatura (aliás, sem grande mérito artístico), desencadeou uma onda destas, isso só foi possível pela manipulação das massas. Eu acho que, uma das razões da possibilidade de manipulação é que há uma circunstância de angústia que domina muitas comunidades. Essa situação de angústia é que propicia o recrutamento dos desesperados. Não é a comunidade que é recrutada para a violência. Certos poderes assimétricos, como a Al-Qaeda, introduziram no seu conceito estratégico elementos religiosos. Neste momento, a nossa concepção [ocidental] é a de que o Estado deve estar separado dos valores religiosos, nos seus conceitos estratégicos. Mas já tivemos essa prática. E com esses elementos religiosos, [os poderes assimétricos] mobilizam os desesperados.
Esta é a situação, que é gravíssima. E tem que haver uma resposta para isso. O primeiro governo que organizou essa resposta foi o governo Inglês, chamando os líderes religiosos para que eles explicassem que os livros santos não santificam o terrorismo. Nós tivemos [em Portugal] uma manifestação, que eu considero importantíssima, desse apelo. E, talvez isso interesse para a sua concepção profissional. Os meios de comunicação não prestaram grande atenção, talvez porque não tinha nada de alarmante… Veio a Portugal o Aga Khan[1] receber um Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Évora. [No seu discurso], disse que também estava ofendido com as caricaturas: “não posso admitir que brinquem com a nossa fé. Mas aquilo em que nós estamos,” disse ele, “não é uma guerra de culturas ou de civilizações, [mas] uma guerra de ignorância recíproca. Temos que compreender-nos!” Esta mensagem, que equivale ao que o governo britânico fez, quando chamou os líderes para esse diálogo, não é uma coisa que esteja, a meu ver, a ser valorizada e a comunicação social tem um grande papel, devia ajudar a valorizar estas intervenções…

JAS: Krassimir Petrov sustenta a tese de uma “hegemonia americana”, que se baseia na “imposição da sua moeda”, como único meio de pagamento para as transacções de petróleo, obrigando os estados compradores a ter grandes reservas de moeda americana, em permanente depreciação, para fazer os pagamentos das suas importações petrolíferas. Este teórico chama “Imposto Imperial” a esta depreciação do dólar e afirma que os Estados Unidos recorrerão a todos os meios para que esta situação não se altere, o que poderia acontecer se o Irão começasse a vender o seu petróleo em euros. Como pode comentar esta tese?

AM: É evidente que um país que é vendedor e que tem uma posição no mercado, que não lhe pode ser retirada, [pode exigir o pagamento] na moeda que quiser. É um problema de guerra pelos recursos. Naturalmente, se vai fazer uma compra e exigem o pagamento numa moeda que não tem, ou não lhe interessa, vai fazer a compra a outro sítio. Agora, se houver uma rigidez de oferta e houver essa força [por parte do fornecedor], se ele mudar de moeda está a incomodar bastante o comprador. [Porque], quando se recusam a moeda, a moeda sofre. As pequenas experiências individuais ajudam a perceber isso. Eu lembro-me perfeitamente que, da primeira vez que, depois de 1974, eu vinha do Brasil, de avião (fumava, nessa altura), quis comprar cigarros e recusaram-me os escudos.

JAS: Por causa da instabilidade que se vivia nessa altura…

AM: Efectivamente. Se a gente recusa uma moeda… os países cuja moeda não é confiável têm esse drama, não se aceitam pagamentos na moeda deles. Portanto, ele [Petrov] o que está aí a desenvolver é uma nova guerra. Ou um novo aspecto da guerra.

JAS: Este autor anuncia, inclusivamente, uma iminente “morte do Dólar”.

AM:
É uma nova guerra. Os Estados Unidos já tiveram um problema, que não é parecido, mas que nos afectou, que foi, no tempo de Nixon, quando a ameaça gaullista de retirar as suas reservas de Fort Knox o levou a declarar a inconvertibilidade do dólar. Essa é uma área muito sensível…

1 O Aga Khan, 49º Imã hereditário dos Muçulmanos Shia Imami Ismailis (o «Imamat Ismaili»), estabeleceu, orienta e dirige um grupo de agências de desenvolvimento internacional autónomas, a Rede Aga Khan Para o Desenvolvimento (AKDN) -, a qual contribui para programas de desenvolvimento em países de África e da Ásia

19 janeiro 2008

Sem compromissos...

Este meu post na 1ª pessoa significa uma mudança de rumo no "Civilizacionices..."

A partir de agora vou utilizar este espaço para os meus desabafos, reclamações e outras bojardas que me apeteça escrever.

Assim, sinto-me mais livre para escrever, sem me obrigar a seguir livros de estilo ou modelos pré-formatados. Quando me apetecer, escrevo! Sem compromissos...